Processo de cárie e estratégias de prevenção: Erosão
Fatores biológicos que influenciam a perda erosiva de superfície dentária

Autor do curso: Susan Higham, BSc (Bacharel em Ciências), PhD (doutora), CBiol (Bióloga Oficial), MRSB (Membro da Sociedade Real de Biologia); Chris Hope, BSc (Bacharel em Ciências) (com distinção), PhD (doutor), FHEA (Membro da Academia de Ensino Superior); Sabeel Valappil, BSc (Bacharel em Ciências), MSc (Mestre em Ciências), PhD (doutor), PGCertEd (Pós-Graduado em Educação), FHEA (Membro da Academia de Ensino Superior); Phil Smith, BDS (Bacharel em Ciências Odontológicas), MDS (Mestre em Ciências Odontológicas), PhD (doutor), FDS (Docente em Cirurgia Odontológica), DRD (Destacamento de Pesquisa Odontológica), MRD (Membro em Odontologia Restauradora), FDS (Docente em Cirurgia Odontológica) (Odont. Rest.), RCS (Academia Real de Cirurgiões) (Edin), FHEA (Membro da Academia de Ensino Superior)

Fatores biológicos que influenciam a perda erosiva de superfície dentária

Saliva

Esse é fator biológico mais importante na prevenção da erosão dentária. Ela começa a agir antes mesmo do ataque ácido com o aumento no fluxo salivar em resposta a estímulos visuais ou olfativos ou à mastigação, aumentando o sistema de tamponamento e diluindo e limpando os ácidos das superfícies dentárias durante o desafio erosivo.2 As propriedades da saliva que influenciam a erosão dentária são:

Vazão salivar: Baixa vazão salivar devido a xerostomia, desidratação, uso de certos medicamentos, patologia das glândulas salivares ou quando não há estímulos para desencadear uma resposta salivar protetora (como quando o paciente sofre de DRGE) significa que os dentes estão menos protegidos durante um ataque ácido.2,29 Uma alta vazão salivar, por outro lado, tem efeito protetor contra o ácido, especialmente porque tem a capacidade de limpar os ácidos das superfícies dos dentes.

Composição química e capacidade de tamponamento da saliva: O maior teor de bicarbonato de hidrogênio aumenta a capacidade da saliva de neutralizar e tamponar ácidos para proteger contra a erosão, enquanto a baixa capacidade de tamponamento está fortemente associada ao aumento da erosão. Além disso, a saliva supersaturada com íons de cálcio e fosfato é mais eficaz em manter a integridade dos dentes pela remineralização da hidroxiapatita no esmalte, enquanto a saliva insaturada com cálcio e fosfato não consegue reabastecer o teor mineral do esmalte2,30 O grau de supersaturação da hidroxiapatita, fluorapatita e fluoreto de cálcio também aumenta à medida que o fluxo de saliva é estimulado e aumenta. Também é importante notar que os locais mal banhados pela saliva ou banhados principalmente por saliva mucosa (que normalmente contém menos íons mineralizantes) são mais propensos a apresentar erosão quando comparados aos locais protegidos por saliva de natureza serosa.31

Película adquirida

A saliva desempenha um papel na formação dessa camada à base de proteína que se forma em poucos minutos na superfície do dente após sua remoção por escovação, dissolução química ou profilaxia. Essa barreira impede o contato direto de um ácido com a superfície do dente e pode servir como reservatório de eletrólitos remineralizantes.32,33 Esse efeito protetor pôde ser claramente visualizado por um estudo de microscopia eletrônica de varredura, no qual a película formada em 2 horas foi capaz de reduzir a erosão por uma bebida ácida.34,35 A película adquirida também contém mucinas salivares, proteínas com a capacidade de aumentar a proteção da superfície do esmalte contra a desmineralização.2 A composição enzimática da película também desempenha um papel importante: A presença da enzima anidrase carbônica VI na película pode proteger contra a erosão dentária, pois acelera a neutralização dos íons de hidrogênio desmineralizantes na superfície do dente.35

A película atinge sua espessura total em 2 horas, mas depois disso, há maturação adicional que permite que ela se torne mais resistente a ácido. Se for removido com frequência devido a fatores como escovação excessiva, não conseguirá atingir a espessura ou a maturação máxima, e o risco de erosão será maior.36

Figura 1A.
Imagem por microscopia eletrônica mostrando película de 2 horas após 10 min de desafio erosivo no local por suco de laranja
Imagem de microscopia eletrônica de transmissão da película formada, por 2 horas, na superfície do esmalte.
Figura 1B.
Imagem por microscopia eletrônica mostrando película de 2 horas após 10 min de desafio erosivo no local por suco de laranja
A película de 2 horas após 10 min de desafio erosivo no local por suco de laranja.
Adaptado de: Lussi A. From diagnosis to therapy. Basileia, Suíça: Karger; 2006. Monographs in Oral Science Series. Vol. 20.
Posição do dente e tecidos moles

A posição do dente na boca pode torná-lo mais ou menos suscetível à erosão dentária. Isso ocorre porque diferentes locais na boca são afetados por variações no fluxo e composição salivar e por tecidos moles, como a língua. Assim, superfícies vestibulares dos incisivos superiores têm maior suscetibilidade à erosão, porque a exposição à saliva é menor, enquanto as superfícies linguais dos dentes inferiores têm menor suscetibilidade à erosão, porque a exposição à saliva protetora é maior.2 As lesões erosivas mais graves geralmente são encontradas nas superfícies palatais dos dentes superiores, devido ao efeito abrasivo da língua. Foi demonstrado que a língua é capaz de remover o esmalte e a dentina já amolecidos.37